segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Você me ajuda pelo amor ao mar?
quando você se joga sem dúvida na água e deixa 
a onda de sal e vida te levar?
Ou então pelo amor ao céu?
o qual você suspira admirando as luminosas
ou se acarinha no peito da lua  fria que nos ignora como deus?

Eu fui desescalar o interior das tuas pernas e

começou a desmoronar. Minhas cordas vocais não aguentaram a pressão
Cairam como Alice num buraco sem gato. Fiquei sem grito, no sufoco engasgada

Alguém me ajuda porque eu já não sei como controlar

tem muito amor eclodindo e ainda tem outros ninhos por lá
Todo mundo sabe que veias entupidas de afeto podem romper a qualquer momento.

As palavras dançaram arrancando meus olhos e os dispondo noutro salão

Encontrei aliviada um coelho branco, mas esse era comum,
só roía meus pés e olhava pro mundo com olhos de sabão

Com a visão perdida dentro dos teus poros, fui proutros sentidos

Os teóricos correram gargalhando da minha incapacidade de ação
Virei cabra-cega, um bobo da corte da monarca Vida

Na festa havia violinos desafinados arranhando pra todo lado

Van Gogh ofereceu girassois ao meu nariz e aproveitou para
minhas orelhas cortar. Como posso culpá-las de pedir ajuda a um amigo?

Ajuda porque meus dedos já estão se retraindo

E só as mãos podem ainda me salvar
Pensei que seria onça pela unha afiada que se tornou o menorzinho
Mas logo veio a garra de coruja no anelar
Ajuda porque daqui a pouco não consigo nem escr

domingo, 26 de julho de 2015

Cansa ser de Humanas


Eu acho MUITA graça dessa zoeira de ser de "humanas" e "fazer miçanga". Inclusive eu mesma faço piada disso ao menos uma vez por dia. Mas já que eu sou de humanas (e cansativa), cabe problematizar, não?
Algumas possíveis interpretações:
- "vender minha arte na praia" (sim, eu sei que era de um vídeo e virou meme e mimimi) - Arte (adoram dizer que história é arte tentando desqualificá-la, como se arte tivesse valor menor que a ciência). Praia, teoricamente, é pra relaxar, ficar tranquilo, onde não se precisa levar nada a sério.
- "fazer vários nadas" - Insinua que cientistas humanos não fazem nada e se fazem é irrelevante, logo é como se não fosse nada (-- Ai Paula, que nada a ver --Péra,mig, péra que tem algo mais concreto que minha leitura).
É nítido que isso é reflexo de como cientistas humanos são vistos pela comunidade científica de exatas e biológicas, pela sociedade e pelo Estado.
Eu cursei Geografia e os professores chamavam atenção para o objeto dela e a necessidade de delimitar o que era geografia e o que não era, talvez não só por um arcaísmo positivista, mas para conferir legitimidade à ciência. Agora, cursando História, vejo como a todo momento temos que ficar provando que o quê fazemos é ciência, mesmo que haja algo de artístico nela. É cansativo ter de convencer todas as pessoas e sempre que estudamos muito, que temos métodos e ficar citando exemplos da nossa relevância social, política, econômica e cultural e pior que isso, é injusto sermos inferiorizados e desvalorizados pelo(s) Estado(s) e Instituições Privadas de Pesquisa. Vide os exemplos:
-"Ciências sem Fronteiras" não contempla C.H. ;
- No prêmio "Mulheres na Ciência" de L'Oréal/UNESCO/ABC não tem categoria para Cientistas Humanas;
- A inconstância da Sociologia e Filosofia no Currículo do Ensino Básico;
- Pesquisadores de Engenharia têm em média um salário de R$ 12.000,00, pesquisadores e profissionais da Saúde de R$ 8.000,00, já os da C.H menos de R$ 3.000,00 (Dados do IPEA, 2012);
- Desvalorização e precarização do profissional da Educação.
A piada é válida e engraçada, mas revela bem mais que uma rixa entre os estudantes. 

Enquanto a modernidade não cai de vez nem há projeto educacional sério no país nem há implosão total do capitalismo... a gente continua rindo, mas sem deixar de correr atrás da mudança. 
Rindo e fazendo origami de dinossauro! *-* 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Quantos dos seus amigos são Porcos Espinhos?


Ela tinha 11 anos gostava de se esconder, filmar os outros e queria se matar no próximo aniversário. Sentia que para ela havia um lugar no mundo, mas de tal forma ilógico e predestinado que a tornava depressiva.
Essa é Paloma, personagem do filme “O Porco Espinho”, o primeiro filme da diretora francesa Mona Achache, lançado em 2009.
Durante o filme acompanhamos Paloma construindo laços afetivos com Kakuro Ozu, o novo morador do prédio, e Renée, a zeladora “educada, mas não simpática”. Entre outros elementos, há um, que considero o principal conector entre as personagens: o conhecimento.
É fácil se identificar com as personagens e recordar momentos como o delas: uma frase completada por um desconhecido, a arrogância de quem te acha invisível, a briga com os pais, a gentileza inesperada, trocar olhares de entendimento e etc...
Sabe aquela sensação de: eu queria que essas pessoas fossem minhas amigas? Como viram é fácil gostar do filme. 
O que é difícil é olhar para o lado e não sentir isso. Não entendam como auto piedade, é apenas uma constatação: laços afetivos estão cada vez mais escassos. Encontrar-se no mundo às vezes parece impossível.
Não é uma mera questão racional, como por exemplo: “ah, temos os mesmos gostos, seremos amigos”, ou “Temos amigos em comum, logo nos identificaremos”... não é isso de que falo.
Falo de olhar para o outro e perceber e admirar a grandeza abismal de sentimentos, pensamentos, experiências que estão na sua frente, de reconhecer um coração batendo e vivendo tanto quanto o seu, ver a beleza da dialética entre qualidades e defeitos que constroem e reconstroem aquele ser a cada instante.
É poder conversar horas a fio sem precisar, sem cobrar e se sentir confortável nos silêncios. É se conectar e querer manter a conexão apesar das divergências. É saber que assim você aquela pessoa também luta e sonha com algo melhor. Poder chorar sem sentir vergonha e rir de absurdos.
Eu encontro no mínimo 40 pessoas todos dos dias, segundo meu Facebook eu já me encontrei e cumprimentei umas 800 pessoas.
E com quantas eu sinto a tal da conectividade? Sendo otimista: com 5 pessoas, sendo que 3 dessas eu raramente encontro/converso. E então eu só posso concordar com Nietzsche quando ele diz: “A arte existe para que a realidade não nos destrua.”, logo  desejo que a música, os livros e os filmes nos ofereçam suas mãos, nos abracem na carência, riam da nossa melancolia e afaguem nossos corações. 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Como me tornei uma mulher e feminista


Quase minha vida toda eu admirei homens, homens do gênero masculino, digo. Os meus cantores favoritos eram homens, os escritores e poetas também homens, bem como atores e a maioria dos meus amigos sempre foram homens.
Quando era pequena e não gostava de brincar de boneca e casinha, vestia-me com “roupas de menino” e um boné na cabeça para jogar futebol na rua, subir na árvore, andar de bicicleta, jogar bete com meus amigos “homens”.
Minhas referências femininas sempre foram mulheres fortes: minha mãe: mandona e incisiva; minha avó materna: de aparência fria, trabalhadora e independente, uma fortaleza; minha avó paterna: corajosa e senhora de suas próprias convicções e vontades. Porém... Sempre houve um porém que eu nunca soube qual era.
O fato é que eu sempre achei os garotos mais legais e eu me sentia mais a vontade com eles. Houve um caso em que chegaram a insinuar que eu era homossexual (como se isso fosse uma monstruosidade), mas no momento eu estava mais preocupada em escolher um adesivo bacana de carrinhos....
Na adolescência eu comecei a fazer amizade com ambos os sexos com uma facilidade maior, no entanto continuei ser a moleca/estranha da turma. Enquanto minhas amigas estavam se maquiando, emagrecendo e alisando o cabelo, eu colocava meu jeans cuidadosamente rasgado, soltava minha juba “à La Caetano tropicália” e ia feliz com meus muitos quilos acima do peso ideal “conquistar o mundo”.
Eu não conquistei o mundo e tive mil e uma desilusões e minha autoestima foi esmagada pelos padrões de beleza e de comportamento (mas eu tinha algum orgulho na época e fingia que “nada me ofendia”). Ouvi muitas vezes: “ele não gosta de você porque você é gorda”, “você não vai arrumar namorado, prenda essa cabelo”, “você tem que ser mais delicada e se vestir como uma mocinha”.
Curiosamente, sofrendo pelo machismo (eu não sabia o que era isso na época) continuava devota e apaixonada pelos homens. Eu admirava os meus professores e alguma ou nenhuma professora, e quem eu culpava era minha mãe e minha avó pelas palavras que tanto me magoavam. Eu era adolescente e não entendia (por isso a necessidade de chegar às adolescentes) que elas apenas reproduziam o que aprenderam, tão sujeitadas aos padrões quanto o restante do mundo.
Hoje, pensando melhor, acho que minha antiga identificação com o mundo masculino era um simples desejo de ter o que eles tinham/têm (e eu não estou me referindo a um falo, com o freudistas –sim, freudistas e não freudianos- podem supor). O que eu quero dizer é que o meu irmão podia brincar livremente pela rua, correr e se machucar e estava “tudo bem” porque era “coisa de menino”, os rapazes adolescentes podiam chegar casa mais tarde, ficar com várias garotas e até ouvir rock (é, disseram que rock era coisa de moleque) sem serem recriminados, os homens sempre me pareceram mais seguros e donos de si, afinal tinham/têm um espaço no mundo e isso era/é escancarado, defendido e legitimado.

Logo, eu só “queria ser homem” porque eu queria ter voz. Felizmente, em algum momento eu me dei conta que eu não precisava ser isso ou aquilo para ter voz, bastava ser EU para ter a “MINHA” voz. E com um pouquinho mais de tempo, percebi que me identificando com o gênero feminino deveria me juntar e lutar por todas as vozes das pessoas que se identificam também e sofrem com a opressão (na maioria das vezes muito mais perversa do que eu sofri) do patriarcado e do machismo.